GIF Livros - 728x90
Home » Textos » Sobre desistências

Sobre desistências

Houve um momento em que abandonar, por mais traumático que parecesse, parecia a coisa mais sensata a se fazer. Abandonar quaisquer coisas: um relacionamento numa fase desanimada, a faculdade que exigia dedicação, um amigo que me dizia o que eu não queria ouvir, um emprego mal remunerado, uma frase que não queria virar poema, um ideal difícil de ser concretizado. Então eu virava as costas para tantas destas coisas e pessoas e circunstâncias e, hoje, jamais saberei o que teria acontecido se eu tivesse persistido um pouco mais. Porque abandonar, para mim, não era sinônimo de desistir, era tão mais prático e dinâmico.

O fato é que com o passar do tempo, vejo que as coisas que fluíram até a solidez foram as que vivi realmente e superei etapa por etapa. Foram as que estive presente mesmo quando o desconforto trazia cansaço.

Os livros que publiquei nasceram nas madrugadas em que eu queria estar dormindo, pois tinha que acordar cedo para o emprego mal remunerado no dia seguinte. Os amigos que permaneceram ao meu lado foram os que não abandonei quando eu estava fugindo de mim, quando tive que me despir de tal forma que eles puderam ver um lado meu muito limitado, mas continuaram me amando por causa e apesar de. O emprego mal remunerado que encurtava meu tempo de escritora, me trouxe experiência para o mercado de trabalho e solidificou a segunda faculdade que eu consegui terminar depois de abandonar a primeira. As frases que não queriam virar poemas hoje são guardadas e revisitadas quando um poema quer virar frase. Todos os sonhos que não deixei envelhecer estão sendo realizados. O relacionamento amoroso que requer compreensão e paciência, às vezes, maiores que o próprio amor, me conduz ao amor próprio e ao autoconhecimento e, com a persistência que arranquei de não sei onde, quando eu só sabia voar, descobri o descanso no pouso. O afago do ninho. A liberdade que é possível viver a dois: “estar contigo e não estar contida”.

Abandonar era a minha solução mais rápida. E a maneira menos criativa e corajosa de crescer. Ir embora do crescimento era tudo o que eu sabia fazer. Virar as costas para responsabilidades e certa rotina necessárias para brincar: de viver, de amar, de escrever, de ser qualquer coisa ilusória e não ter nada concreto, mas milhares de projetos imaginários.

Penso sobre isso hoje, enquanto os dias escurecem às 22h no verão da Europa e eu posso tomar um chá no jardim vendo o pôr-do-sol, simplesmente porque não abandonei tudo durante a minha dificuldade em me sentir confortável no rigoroso inverno.

Penso nisso quando olho praquele moço de olho azul e personalidade forte como a minha, me olhando da sala enquanto escrevo este texto no quarto e que, de tempos em tempos, se levanta para me dar um beijo ou me fazer rir: eu quase abandonei este moço com o inverno, a Europa e tudo o mais que eu não sabia que melhoraria e me faria crescer imensamente porque eu só sentia saudade: de tudo que não era novidade.

Eu quase desisti de viver isso que posso, finalmente, chamar de vida: sonhada, persistida, sendo realizada.

Marla de Queiroz

Houve um momento em que abandonar, por mais traumático que parecesse, parecia a coisa mais sensata a se fazer. Abandonar quaisquer coisas: um relacionamento numa fase desanimada, a faculdade que exigia dedicação, um amigo que me dizia o que eu não queria ouvir, um emprego mal remunerado, uma frase que não queria virar poema, um ideal difícil de ser concretizado. Então eu virava as costas para tantas destas coisas e pessoas e circunstâncias e, hoje, jamais saberei o que teria acontecido se eu tivesse persistido um pouco mais. Porque abandonar, para mim, não era sinônimo de desistir, era tão mais…

0%

User Rating: 4.05 ( 10 votes)
GIF CDs - 250x250

About Marla de Queiroz

Check Also

Procurar pelo amor foi inútil

Procurar pelo amor me foi inútil. O amor me encontrou. Não foi necessário nada além …

3 comments

  1. Ana Paula Rodrigues Ramalho

    Eu desisti do face, mas de ler seus textos, nunca 😉

  2. Que bom que não desistiu. Em breve, seremos eu, meu marido e meus dois filhos tentando na Europa o que infelizmente não conseguimos no Brasil: tempo de qualidade e equilíbrio na vida para tudo que é importante, família, amigos, espiritualidade, nós mesmos.
    Por amor tanta coisa vale a pena! 🙂

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *