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Marla de Queiroz
Marla de Queiroz

Carta de outono

Marla de Queiroz
Foto – Marla de Queiroz

Paris, 23 de setembro de 2016.

Chéris,

Uma primavera se inaugura no Brasil enquanto eu recebo as oscilações de sol morno e céu cinza do outono em Paris. Não sei ao certo que notícias eu deveria dar, portanto, descreverei talvez sensações e paisagens. Da minha janela: a esta hora a tarde ainda impera e a noite se atrasa preguiçosa. Os cafés podem se estender pelas calçadas tornando-se o endereço mais próximo do final do expediente. Poucos são os que voltam para casa depois do trabalho quando não é inverno. O frio ainda é flácido, as temperaturas dançam entre frias e amenas, mas não assustam: vê-se a insistência dos vestidos pelas ruas; vê-se os braços nus e algumas cores. Flores já não há, é fato. Mas a brisa ainda carrega resquícios de perfumes. Tudo vai se tornando o rastro de coisas muito vivas que explodiram num verão breve e intenso, sempre saboroso e saboreado exaustivamente pelos que aqui moram. Na minha casa: transito pelos cômodos ainda procurando arrumação para o novo apartamento. Todos os lugares dados para as coisas são provisórios. Minha maior excitação tem sido descobrir possibilidades de aconchego. Uma manta no sofá, um incenso de lavanda, o cheiro fresco do café no final da tarde. Espalho meus livros sobre a mesa à procura de alguma inspiração e, entre Hilda Hilst, Ana C. César, Mia Couto e mais alguns, desisto da ganância literária e aceito minha rusticidade em dizer assim, como a gente faz nas cartas. Percebam que nada de grandioso foi dito, tudo vem carregado de cotidiano e um aparente tédio, mas nessa ociosidade do instante em que escrevo, tudo é calmaria e paz mesmo tendo a TV ligada no MUDO. Dentro de mim: então internamente há uma profusão de verão/outono, janela aberta e cores parcas. Muitas vezes uma explosão de lembranças que causam falta de disposição pro novo, outras tantas uma explosão de novas curiosidades: nestas eu me firmo e prevaleço. Para sempre a mesma busca pelas possibilidades de aconchego: alguns sentimentos procuram fatos, lembranças buscam fotos, sensações descobrem textos. E os dias se circundam de sol-a-sol ou nuvem-a-nuvem e eu sigo investigando se o que produzi nos meus instantes me causaram mais alegrias que tristezas, se consegui superar a procrastinação e dar voz à minha praticidade, se consegui deter a angústia por, simplesmente, FAZER. Enfim, essa é minha retomada tímida com algumas notícias que consegui escrever para penetrar o meu denso silêncio. É que percebi que um escritor morre todas as vezes em que ele silencia por medo de que o que tenha a dizer não possa ser feito da maneira mais bonita.

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